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Glam Magazine

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“Ensemble”… o novo disco de Rui Massena

Ensemble” vale, na linguagem descodificada da Música e dos Músicos, como sinónimo de partilha, de conjunto, de exercício de grupo. De imediato, fica explicado – e será muito melhor entendido, à medida que o disco vai rodando, sempre no difícil mas concretizado cruzamento da emoção, da beleza, da técnica, da disciplina, da superação – o título do novo andamento do Maestro Rui Massena.

A propósito de “Solo”, capítulo anterior, em que o autor e intérprete dispensava (quase) todas as companhias, escreveu-se que espelhava a “refrescante solidão de um piano”. O que dizer deste “Ensemble”, em que o piano aparece como desafio, como dínamo, como domínio de diálogo para a Czech National Symphomic Orchestra? Cada um avançará com uma resposta possível, mas dentre todas elas ressaltam duas certezas. Por um lado, trata-se de uma sequência lógica na construção do património de um compositor e executante, agora disposto a juntar mais “vozes” à do piano, que tão bem protagonizou a aventura anterior. Por outro, permite a Rui Massena o fascinante exercício da “dialética”, uma vez que reparte talentos e saberes pela condição de pianista e pelo estatuto de director da orquestra.

rui massena.jpgErrado será presumir qualquer espécie de egocentrismo nesta dualidade, tão praticada por notáveis antecessores do músico do Porto, nascido em 1972 e cuja inclinação vocacional se viu sempre acompanhada pelos múltiplos passos da formação, até à maturidade que aqui se reafirma. Dir-se-ia mesmo que, se é aceitável apontar “heterónimos” na Música, Rui Massena encarna, perto da perfeição e à vista de todos, os três papéis principais: o do compositor, ciente mas não cioso dos seus tesouros, que põe à disposição de quem o ouvir; o do pianista, espécie de bússola capaz de definir o rumo e de ir abrindo as portas e lançando os alicerces em cada um dos 13 temas, que se completam mas nunca se sobrepõem; o do maestro, que consegue sempre dignificar a presença dos instrumentistas que dirige, que aceita funcionar como um “bem-vindo intruso”, passe a contradição dos termos. Massena contra Massena? Nada disso: mesmo que os caminhos pareçam divergentes, emerge, a cada (com)passo deste disco, a superior arte da conciliação, mais dócil ou mais agitada de acordo com a inspiração e as necessidades do momento. Não fosse o desfecho da festa tão categórico, tão sugestivo, tão intenso, teríamos que referir o dom da ubiquidade. Assim, ficamo-nos com a ideia de alguém que consegue vestir vários fatos – que não fardas – e se apresenta sempre a rigor. Obstinado? Antes convicto…

 

Ensemble” começa com um “Abraço” e despede-se com uma “Valsa”, depois de ter atravessado e feito escala em frentes tão diversas como “Estrada”, “Alento”, “Liberdade”, “Borboleta”, “Amanhecer” e “Renascer”, para citar apenas meia dúzia dos centros nevrálgicos em que Rui Massena deixa cravada uma bandeira, que muda sempre de cor, mas nunca altera a dose sábia de assertividade que lhe garante nunca se deixar atolar em prolongamentos inúteis (o mais longo dos temas, Borboleta, ronda os quatro minutos e meio, talvez por mostrar o mais aceso contraponto entre o piano e as cordas – o que poderia motivar o plural, “Borboletas”, tão diversos são os percursos caminhados), em discursos que se deixem entusiasmar pelo próprio eco, perdendo objectivo e pontaria. Cuidado: nunca se confunda a assertividade enleante dos temas propostos e apresentados com utilitarismo ou facilidade, atributos que não cabem nesta música poética e positiva, mas também estruturada e envolvente. Ou seja, o cronómetro, mesmo que tenha sido utilizado, nunca ditou leis, como facilmente entenderá quem ouvir cada um dos ambientes desenhados.

 

Se “Abraço” pode remeter para o tom cristalino de “O Principezinho”, de Saint-Exupéry, em que o impulso de cativar se equilibra na responsabilidade de alimentar a relação “de proximidade”, “Valsa” surge como uma despedida, tão melancólica como elegante, nos antípodas das grandiloquências exibicionistas que, às vezes, se associa ao género. Neste caso, como acontece repetidamente ao longo do disco, o autor prefere ficar pelo essencial, deixando espaços à respiração de quem ouve e ao silêncio, parte integrante de um todo que, tal como acontecia em Solo, vai directo “ao assunto”, sem atropelos mas sem hesitações. Em Estrada, mais do que o trajecto entre dois pontos, goza-se a viagem. Na planície rasgada ou na sinuosa montanha? Cada um sabe de si… Alento mostra o perfume de um canto de trabalho, ritmado a preceito. Se já se falou de Borboleta, também Amanhecer merece menção: começa entre a neblina e o orvalho matinais, até que os vidros da janela se vão desembaciando e o Sol chega ao seu trono. Em Renascer, já perto do adeus (e não será acaso) ouve-se ao fundo a única, mas poderosa, contribuição da voz humana, através da gargalhada sem rédeas. Pelo meio, há Liberdade, que começa – começa sempre… – com o sonho, atravessa sobressaltos e contradições, para finalmente ser vivida em pleno, com uma serenidade que não dispensa a rega e a reflexão.

Tudo isto denuncia uma fase tão madura como entusiasmada do autor, comunicador por excelência, na música como na “vida real”.

 

É o mesmo homem que ocupou – numa estreia para Portugal – um posto de direcção no mítico Carnegie Hall nova-iorquino (foi o primeiro dos nossos compatriotas a dirigir al uma orquestra, o New England Symphonic Ensemble, em 2007) e o mesmo Maestro que não hesitou em saltar fronteiras, muitas delas enraizadas no preconceito, levando orquestras a coloaborar com grupos pop como os Da Weasel ou os Expensive Soul. Lá mais atrás, ficou uma licenciatura em Direcção de Orquestra na classe do Maestro Jean-Marc Burfin, pela Academia Nacional Superior de Orquestra de Lisboa. Deixou marcas na Madeira, como director artístico e Maestro titular (nos anos 2000 a 2012) da Orquestra Clássica local, e como director pedagógico e presidente do Conservatório de Música da Região. Mostrou-se ao grande público ao assumir um projecto televisivo chamado Música, exibido pela RTP. Mais recentemente, fundou e dirigiu a Fundação Orquestra Estúdio entidade fundamental ao longo de 2012 e da vigência de Guimarães como Capital Europeia da Cultura. Recebeu a Medalha de Ouro de Mérito Cultural e Científico de Vila Nova de Gaia e, em 2013, a Academia de Artes e Ciências do Brasil atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Cultural.

 

Há, depois de se ouvir “Ensemble”, uma impressão que, vinda de Solo, ganha aqui nova dimensão, com a ajuda da Czech National Symphomic Orchestra, fundada em 1993 e que, a par de outros pergaminhos, foi a primeira orquestra não-japonesa a concretizar a gravação de música directamente para jogos de video e que parece ser a eleita do genial Ennio Morricone (compositor italiano que, já em 2016, aos 88 anos, ganhou o seu primeiro Óscar depois de outras cinco nomeações e de ter assinado mais de 500 partituras para longas-metragens, séries de Tv e documentários), que convocou estes músicos para as gravações das bandas sonoras de A Melhor Oferta (filme de Giuseppe Tornatore) e de Os Oito Odiados (de Quentin Tarantino) e que por eles foi acompanhado na digressões de 2015 e 2016, num total de três dezenas de concertos. A “ligação directa” ao cinema do ensemble checo contribui para solidificar essa ideia: a de que Rui Massena escreve estes deliciosos e assertivos temas como bandas sonoras de filmes que, se calhar, ainda não existem – a não ser na intimidade preservada de cada um de nós. O Maestro ainda goza o prato, a partir deste dado: cada um de nós “realizará” certamente filmes muito diferentes para as suas composições. Seguro, mesmo, é que não deixaremos de as escutar e aproveitar.

Passado algum tempo, já serão um bocadinho nossas. Já são?

 

João Gobern / Abril 2016